01/06/11

Conto Individual (que precisa de emagrecer)

SOMOS FILHOS DA MADRUGADA

Esta é a história de Carlos Lourenço contada na primeiríssima pessoa, que relata, após quarenta anos do sucedido, uma das peripécias mais imprevistas e fortuitas da sua vida, pelo ano de 1974, num certo mês de Abril. Nada é para sempre, é certo, e talvez que os caros leitores não encontrem distinto interesse naquilo que aqui é narrado. Porém, peço-vos que abdiquem um pouco do vosso tempo, dessa “superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar”, e oiçam o que tem para vos dizer este homem de barbas tecidas com fios de prata e palavras.

Se caminhares na rua, nunca olhes para trás. Não sabes o que se esconde nas sombras, diziam os anciões do lugar onde nasci. Deixei cedo a casa dos meus pais e, para ser franco, não tive pena. Vivi durante dezoito anos numa aldeia de casas brancas e barras azuis, caiadas, com postigos de madeira sempre entreabertos, atrás dos quais se resguardavam, num falso silêncio sepulcral, olhos curiosos, bocas agoirentas e ouvidos sedentos de coscuvilhice. Uma daquelas terriolas olvidadas nas planícies macias de trigo doirado do Alentejo, acocoradas à linha fronteiriça que dividia a Península Ibérica em duas partes desiguais. Num daqueles serões de estio, enfadado de passar os dias agarrado a uma enxada, anunciei à família que, na semana que se avizinhava, tencionava partir para Lisboa. Uma orquestra de bocas abriu-se em uníssono, entoando sons de assombro e estupefacção. As colheres caíram, desamparadas, nos pratos assoberbados de um caldo salgado de grão e toucinho, polvilhando as roupas de domingo, de alvos colarinhos e hirsutas de goma, com nódoas de azeite.

Declarei, então, que um amigo que se encontrava na Amadora me tinha arranjado um trabalho como ladrilhador na construção de umas moradias na Serra de Mira, onde ele próprio se apresentava ao serviço todos os dias. Enquanto aliviava o corpo do peso da derradeira confissão, pensei que seria um louco se me deixasse apiedar pela tristeza que lhes dançava nos semblantes e declinasse o convite. Urgia, portanto, que me desenvencilhasse das mentes tacanhas e retrógradas que enchiam os serões à volta da lareira, por alturas do Inverno, de histórias medonhas com bruxas de cabelos queimados e feiticeiros loucos de um só olho. E tal era a efervescência do espírito que, no dia em que me fui embora, ignorei os bolos folhados da minha mãe e o carpir desgostoso dos meus irmãos. Para o meu pai, sempre firme nas suas opiniões e no cajado, aquilo era o que estava certo, “porque é assim que se fazem os homens”.

Quando cheguei à capital, mais propriamente ao Cais do Sodré, procurei a casa do meu tio Evaristo que, numa das muitas vezes que nos visitara na aldeia, me prometera dar guarida no seu apartamento, caso eu desencantasse algum ofício por terras de Olissipo. Pareceu-me bem. Aliás, tinha do meu tio a imagem de um senhor pançudo e aprumado, muito esticado nas suas casacas de fazenda dispendiosa, com o cabelo cortado à escovinha e um bigode preto aparado, debaixo do qual se espreguiçava num sorriso de bonomia que lhe afogueava as maçãs do rosto rubras e luzentes. Porém, chegado à morada que me indicava o papel pardo que trazia nas mãos, tive grande espanto quando vi o meu tio aparecer à entrada do prédio, de ceroulas compridas e barba mal feita, praguejando e perguntando quem seria o “grande imbecil” que o tinha acordado do seu plácido torpor. Não o reconheci. Fiquei tão perplexo que nem sequer tive reacção quando ele veio até à entrada e me fechou a porta na cara, proferindo um parágrafo de asneiras. Por certo, o meu rosto fazia transparecer uma tal expressão de incredulidade, que um vizinho chegou a perguntar-me se me estava a sentir bem. Ignorei-o, tal como me fez o tio, mas coibindo os palavrões.

À pressa, o sol recolheu aos seus aposentos levando consigo, depois do arrebol, um horizonte matizado a laranja e rosa. Em Lisboa, os candeeiros alumiavam as ruas com uma luz lúgubre e os comerciantes fechavam as suas lojas e boutiques numa azáfama que não se conhecia na aldeia. A polícia, essa, deambulava pelas estradas, fingindo-se embriagada, entrando e saindo dos estabelecimentos ainda abertos. E eu, que também caminhava pelas mesmas ruas, bebia a brisa marinha como consolo para o sucedido e pensava que não tinha lugar para onde ir. Na Amadora só me davam trabalho, nada mais… Era oficial: estava entregue, não aos desígnios de Deus (porque esses haviam falhado), mas sim aos meus. Quis, em desespero de causa, telefonar para casa. Quis confessar-lhes que me sentia sozinho e que ansiava por regressar. Quis dizer-lhes que podia ter crescido lá e que não necessitava de ter-me ido embora para me tornar homem. Quis muita coisa, mas as moedas que sobejavam na bolsa de camurça não eram suficientes para tal telefonema. Limitei-me a entrar num café ao final da rua e a sentar-me numa das mesas do canto. Gastei algum do dinheiro num pastel de bacalhau miserável e numa aguardente, apreciando a maneira como o líquido me queimava a garganta, purificando o sentimento de ódio que a fazia pulsar.

Eis se não quando, cerca de meia hora depois, a entrada de dois homens no café a fumar cigarrilhas, tirando os chapéus e saudando a clientela, me chamou a atenção. Os gestos de ambos despertaram-me os sentidos até então anestesiados. Sentaram-se, pois, ao balcão e pediram um prato de chouriço e azeitonas. Enquanto comiam, um deles levantou-se e disse para os presentes:

- Escrevi isto ontem à noite. Ora oiçam e digam-me o que acham!

- Vê lá o que para aí dizes, Cesariny! És poeta mas dispenso ser parte nas confusões em que te metes! Ainda aparece aí a bófia e depois o que é que eu digo à minha mulher? Não preciso de outro Bocage!

- Calma, camarada! Este, asseguro-te, nem eles vão perceber!

Declamou, com pujança, um poema floreado de metáforas e palavras caras. Quando terminou, dobrou-se numa vénia desajeitada. Agradeceu e, num pulo algo efeminado, voltou para o balcão e colocou a mão sobre a do homem que o acompanhava.

- Então? Gostaste? – rumorejou para o amigo.

- Maravilhoso, Mário! Deveras maravilhoso! – respondeu o outro, colocando o chapéu na cabeça e preparando-se para sair – Agora vou indo, que tenho a minha sogra em casa e já sabem como é… - suspirou, dobrando-se depois para o poeta – Amanhã, à mesma hora, lá estarei.

Após escassos minutos deste último ter saído, invadiram o espaço três polícias, de bigodes severos e expressões austeras e graves. Apontaram para Cesariny, vociferando:

- É ELE! LEVEM-NO PARA A ESQUADRA!

Agarraram nele e arrastaram-no como a um bicho bravo, ao mesmo tempo que lhe distribuíam pontapés nas canelas e palmadas na cabeça. Eu, atacado por uma vaga de fúria incitada pela injustiça e despropósito da cena a que acabara de assistir, insurgi-me, gritando impropérios aos guardas. Um deles, cuja mais de metade de um século já lhe ia pesando nos olhos papudos e nos lábios gordos pendurados pelo queixo, aproximou-se de mim e aconselhou-me, de uma forma pouco amistosa, a ficar calado, com o argumento de que eu não era para ali chamado. Porém, não me conformando com pouco, fui atrás do guarda e questionei-lhe a autoridade e o direito que tinha para arrastar um inocente para a prisão só porque tinha declamado um poema. Ao que o polícia respondeu, virando-se para os colegas:

- Levem este também, que está demasiado atrevido para o meu gosto. E diz aqui este inteligente – apontou o polegar para si próprio - que se acabaram, não as canções, mas os poemas! TUDO PARA A ESQUADRA, JÁ!

O primeiro a ser interrogado foi o poeta que, a registar pela descontracção do corpo, não parecia nem um pouco apoquentado com a humilhação a que tinha sido submetido. Enquanto eu esperava, os gritos provindos do interior da esquadra ditaram-me um pensamento de revolta e desilusão: “Vem uma pessoa prenhe de sonhos para isto…”. Senti, de mansinho, uma ponta de choro tímido humedecer-me os olhos. Abanei a cabeça e pensei: “Não! É assim que se fazem os homens!”. A páginas tantas, veio ter comigo o guarda que minutos antes me mandara aprisionar e levou-me para a mesma sala onde estava Cesariny. Ainda mal tinha posto um pé dentro do perímetro, pude sentir logo duas manápulas a puxaram-me a roupa, encostarem-me a uma parede e baterem-me com cassetetes. Depois, sentaram-me numa cadeira e o mais alto dos três guardas perguntou:

- Tu é que és o amigo aqui do Mairito, não é? Só pode! Foste o único que o defendeu no café! O amor sempre me comoveu! – gargalhou, aliciando os colegas a rir com ele.

Silêncio. Muito silêncio.

O guarda bateu com a mão na mesa, provocando um estouro desmedido.

- ENTÃO? FALAS, OU O TEU AMIGO COMEU-TE A LÍNGUA?

Senti um grito colossal agigantar-se e tomar forma nas goelas. Reprimi-o.

- Eu não sou o amigo de ninguém! Nem o conheço! Chamo-me Carlos e acabei de chegar a Lisboa! Podem confirmar isto pelos meus documentos! Eu apenas o defendi por uma questão de justiça…

- Pfff… - desdenhou o mais baixo em tom de gozo, enquanto prendia um cigarro com os lábios e procurava fósforos nos bolsos da farda – Estes comunistas… Muita justiça querem eles!

Vasculharam a minha mala à procura de uma identificação e, seguidamente, acolheram-se a um canto da sala e falaram entre si. O de olhos papudos e lábios gordos acariciou o bigode, ajeitou as calças que lhe desmaiavam pelas coxas roliças e ditou-me, com indiferença e repugnância:

- TU! Podes ir embora, já não estás aqui a fazer nada! E que isto te sirva de lição, rapaz, han? ...Comunas…

Peguei nas minhas coisas e saí aos tropeções, de pernas trémulas. Já na rua, ainda os ouvi fazer a mesma pergunta ao poeta: “Quem é o teu amiguinho?”. Ao que ele respondeu, cansado da pancadaria e da tosse vinda de dois pulmões de alcatrão, sem pudor:

- Como posso eu saber se estou quase sempre de costas?

Fui até à estação de camionetas mais próxima, com os lábios e o olho direito a latejar. Apanhei o último autocarro até à Amadora, gastando, por fim, as moedas restantes. Lá chegado, por miraculosa sorte, não tardei a vislumbrar, entre pinheiros selvagens da Serra de Mira, uma comunidade de choupanas e prédios semi-edificados. Quando lá cheguei, reconheci o meu amigo, sentado numa pilha de tijolos a contemplar a lua de ardósia. Corri para ele, choroso e emocionado por ver uma cara conhecida, e supliquei-lhe que me deixasse passar ali a noite.

Abraçou-me e apertou o meu ombro em sinal de compreensão, como se tivesse assistido às últimas horas do meu dia. Levou-me, então, à presença do mestre-de-obras, que era quem tinha o poder de decisão, e ao que este, sebento e ébrio, não se pareceu opor, servindo-se de um arroto sonante como uma metáfora para um sim sem vontade, foi-me indicado o casebre que eu passaria a chamar, provisoriamente, de casa. Feito de tijolo sobreposto e uma estrutura interna frágil de madeira, pensei que não passaria muito tempo sem que ela desabasse sobre mim. O coração caiu-me aos pés. Mas, “NÃO! É assim que se fazem os homens!”.

Como se a vida fosse sempre um carnaval, apesar de todas as suas vicissitudes, e reparando na minha ausência de sono, o meu amigo indicou-me com o mindinho um aglomerado de casas, branqueadas por centenas de luzinhas de rua, que espreitavam por detrás de uma colina. Ali, eu poderia passear até querer, porque ninguém se deitava cedo. Posto isto, recolheu à barraca, bocejando e batendo com os dedos, ao de leve, na boca.

Andei até chegar a umas vielas ainda barulhentas e movimentadas, onde acabei por ir dar a uma espécie de clube que, àquela hora, passava um filme chamado O Conde Drácula, dirigido a um público exíguo e sonolento, que ressonava a bom ressonar. Assisti à película e, quando aquele que eu presumi que fosse o director do clube, apareceu e nos mandou a todos embora, apelidando-nos carinhosamente de “bestas ignorantes”, retornei contrariado à minha nova morada.

Lá chegado, tirei do taleigo que trouxera, uma fatia de pão mole, um bocado de linguiça e uma vela. Primeiro, devorei o pão e o conduto com voracidade e só depois de mitigada a fome, é que peguei na vela e principiei por acendê-la. Repeti esta acção três vezes. À quarta, recordando-me da cena em que, à meia-noite, o drácula se levantava do caixão, bebia uma taça de sangue e sopravam violentas rajadas de vento que extinguiam qualquer sinal de luz, mandei a vela às urtigas e fui refugiar-me no casebre do meu amigo. Este era cabo-verdiano e estava em Portugal há algum tempo. Conhecera-o um Verão no Rosal, pequena terra espanhola, havia três anos, enquanto auxiliava a minha avó no contrabando de café, ajudando-a a passar a mercadoria para o outro lado da fronteira, sem que fossemos abordados pela guarda civil. Era homem de parco diálogo. Eu falava e ele comedia-se num sorriso pequeno que valia por mil palavras. Os meus monólogos não me incomodavam e até a afã se tornara menos infernal sob aquele sol pernicioso.

Entrei, sem que me convidasse e servi-me de uma cadeira. Depois, imitando-me os gestos, sentou-se à minha frente, ainda meio azamboado de sono, a olhar para mim. Eu, que só queria disfarçar o pavor que me assaltava e quebrar o emudecimento de ambos, pedi-lhe que me contasse tudo sobre a sua vida e os acontecimentos mais insólitos a que tinha assistido no país de onde viera, para que não nos deixássemos adormecer. Ele, por sua vez, e surpreendentemente, contou-me muita coisa, bebendo de um garrafão e descascando laranjas, comendo-as com lentidão e limpando os cantos da boca com as mãos grossas e calejadas, quando o sumo da fruta lhe escorria de um sorriso libertino, sempre que me contava algum episódio relacionado com mulheres.

Apontei para uma telefonia que vivia solitária em cima de um banco, polvilhada de um pó lácteo, e perguntei-lhe se funcionava. Soprei a poeira das teclas, estiquei a antena e tentei sintonizar uma frequência. Ancorámo-nos os dois à coluna da telefonia, enquanto eu rodava o botão na esperança de encontrar uma estação de rádio audível. De repente, sai do aparelho uma voz esganiçada e, depois, normalizada, que bradava: “Aqui, posto de comando do movimento das Forças Armadas: as Forças Armadas Portuguesas apelam a todos os habitantes da cidade de Lisboa, no sentido de recolherem a suas casas, nas quais se devem conservar com a máxima calma…”.

Exaltei-me. Aquilo era sério. Na aldeia onde vivi, a ditadura não era vivida com tanta intensidade como nas grandes metrópoles. Mas conhecia o suficiente do regime para saber que poderia não passar de um golpe militar para derrubar Marcelo Caetano e tornar as coisas ainda mais difíceis. Sintonizei melhor a rádio, e de dentro da telefonia, despregou-se, como uma onda de perfume, uma guitarra de Carlos Paredes e uma Grândola Vila Morena de José Afonso. Quando olhei para o meu relógio de bolso, os ponteiros indicaram as cinco da madrugada e pude entender um único disparo seguido de uma torrente de gritos. O meu amigo, intimidado pelo estalido da bala, refugiou-se debaixo da mesa e principiou por entoar uma reza ignota. Assomei-me à porta e vi um rio de pessoas brotar de todos os cantos, ruelas e vielas, de punhos erguidos e clamores de liberdade nas bocas. Vi o vinho jorrar pelos copos, as fatias de marmelada no pão e o queijo a serem distribuídos por todos. Vi as crianças em cima dos ombros dos pais com cravos nas lapelas. Vi o mundo, outra vez, nas mãos do Homem bom, e não do Ditador. Vi um “mar de contentamentos”.

Porém, assim que me pareceu propício juntar-me àquela festa tão apetecível e quando o meu amigo já ia surgindo a medo do seu esconderijo, de nariz empinado como que a farejar o ar, ouvimos uma sucessão de tiros distintos dos anteriores que nos fizeram recuar para o interior, deixando a porta entreaberta. Alguém disparava sobre as pessoas. Alguém não concordava com o bulício e os bramidos de alforria.

Perscrutámos por entre os buracos do tijolo e divisámos, mais adiante, uma faixa enorme de polícias fardados: uma autêntica fileira de dráculas que disparavam à queima-roupa sobre a populaça, que assombravam a luz de um Sol novo que vinha nascendo e recolhiam do sangue dos inocentes, o sabor atroz da sua vingança. E pior! No meio deles, vi um homem que, apesar de tudo, não esperava encontrar ali: o meu tio Evaristo, de arma empunhada pelo já pútrido e decadente Estado Novo. Então, por entre a multidão, ressoou uma voz que proferia o seguinte: “Não tenham medo, camaradas! A ignorância é um cancro social! Combatamos! Continuem a andar, porque para a frente é que se desbrava caminho! Somos filhos da madrugada e ainda não nascemos! Temos um dia inteiro para nascer!ƒ Amigos, nós somos a palavra!”. Reconheci-o! Era o poeta!

Agarrei no braço do meu amigo e arrastei-o para a nuvem de gente cujo verbo era impossível de apagar. Cesariny sorriu e deu-nos a mão. Atraiu-nos para o seio fraterno dos irmãos e das irmãs, onde a igualdade é inata e para todos, e as canções se viriam a perpetuar. Ergui a cabeça e cantei com eles. Elevei o peito e marchei ao compasso dos tiros que a polícia disparava atrás de nós, embravecida como lobos feros, de orlas de espuma branca aos cantos da boca. Fechei os olhos e honrei a pátria com a garganta cheia de música. Andei e não olhei para trás, para a sombra de espingardas negras, porque somos a palavra e “porque é assim que se fazem os homens”.


Nº 41149

De Coração (versão revisada)

“Submeter-se cegamente à linguagem do admirável e do ideal
é com certeza irresistível. Mas o real insiste, persiste e espera
a oportunidade de mostrar-se avidamente.” – Suzzane Leal

A consulta com a astróloga não sai da minha cabeça. Acho que era melhor não ter ido naquele consultório, sabe?... Ela com aquela conversa de que eu tinha que tomar cuidado com overdose... Olhou bem nos meus olhos e perguntou: “Você usa drogas?” E eu, com as pupilas suuuuper dilatadas, nem tinha como disfarçar... Só podia confirmar com a cabeça, bastante embaraçado. Foi até interessante a parte em que ela disse que trabalho há várias vidas com música. Mas a parte em que disse que morri degenerado por drogas na minha última vida e que o risco é parecido para a vida atual é que me deixou preocupado. Mas sei lá... E se essa mulher for uma charlatã?? Depois que vi aquele programa de TV com um falso vidente, que mostrava a sua tática de antes fazer perguntas e depois jogar com probabilidades em cima do que foi respondido… Eu já havia dito a ela que sou músico, e ela viu que eu estava com as pupilas dilatadas, por isso veio com esse papo. Ai, mas e se for verdade?... A Sandra, minha primeira astróloga, também disse para eu tomar cuidado com as drogas. “Pelo amor de Deus, Daniel, não se envolva com drogas!”

Medo.

Hoje é noite de Revéillon. Estou numa festa na cobertura de um amigo, o Roberto, que mora bem em frente a uma pequena praia, num recanto escondido da orla. Vimos a queima de fogos pela janela. A festa até está animada, mas não estou curtindo. Síndrome de abstinência me deixa mal-humorado.

“Gente, tá na hora de descermos com o barco de Iemanjá e lançarmos ao mar!”, conclamou Roberto. “Todos já escreveram seus pedidos?”

Eu ainda não. Fiquei em dúvida se deveria fazer isso. Crendice tola, pensei. Mas por outro lado, decidi me permitir participar da brincadeira. Por que ser tão duro comigo mesmo? Escreve lá, não custa nada!

Peguei um pedaço de papel e uma caneta e fiz um pedido. Dobrei o papel e depositei no barquinho feito à mão, junto com os pedidos das outras pessoas. O barquinho tem uma imagem de Iemanjá e várias velas acesas, além dos pedidos. Descemos todos para a praia em frente. Roberto e seu amigo italiano estão só de sunga e entraram no mar com o barquinho, que foi levado por uma corrente. E lá se vão nossos desejos, juntos com as velas acesas, cujas luzes se perdem na escuridão do mar...

Voltamos todos para o apartamento. Vim até a janela para ver onde o barquinho está. Ele retornou para a praia, e num gole só foi consumido por uma onda. Só eu testemunhei a cena. Procurei pelo Roberto para contar o que acabei de ver, mas ele está tão feliz, conversando numa rodinha de amigos, que achei melhor guardar para mim. Fiquei um pouco perturbado, mas pensando bem, acho que isso não tem importância, deixa pra lá. Na verdade o que não sai da minha cabeça é o fato de que é noite de Revéillon e todos estão colocados, menos eu. Estou lutando para não me entregar. Mas está tão difícil… Logo hoje, esse dia pede um aditivo! Meu Deus, acho que não vou resistir, a tentação é muito forte. Ah, é só hoje, qual o problema?... Vou ligar pro meu dealer, ele me vende mais barato do que qualquer um aqui. Espero que ainda esteja atendendo.

Conheci o Claudinho há exatamente um ano, numa festa de psy-trance na praia de Ipanema. Basta eu ligar e ele traz para mim no nosso ponto de encontro. É só pagar e pronto, tenho livre acesso ao Paraíso. Simples assim. Nunca foi tão fácil conseguir chegar ao Nirvana sem precisar ser um monge budista enclausurado no Tibete. É como uma viagem num foguete: você entra, acomoda-se e ele te conduz até às alturas. Paradise-on-delivery.

Ao procurar seu número na agenda do meu celular, surge a astróloga na minha mente. Ah, mas o dia hoje vai ser lindo! Não tem uma nuvem no céu, e o Sol já começa a despontar os seus primeiros raios. Acho que vai ser uma onda boa… É irresistível! Ah, vou ligar.

“Oi, Claudinho! Aqui é o Daniel. Escuta, você ainda tem aqueles convites da festa?”

“Tenho sim. Quer quantos?”

“Dois.”

“Tranquilo. Daqui a quinze minutos.”

Vou até a pracinha aqui perto. É onde sempre nos encontramos. Ele chegou antes de mim. Apertamos as mãos e discretamente pego duas pílulas.

“E aí, qual é a marca dessa?”

“Essa é a XL, muito boa, pancadão.”

“Ah é?...”, perguntei, com um sorriso igual de criança.

“Sim, essa é forte, hein! Uma só já é poderosa.”

“Legal. Toma a grana, são cinquenta reais, né? Valeu então, vou pr’aquele lado.”

Estou tão ansioso, mal consigo me conter. Onde vou tomar? Em casa não dá, meus pais estão lá. A festa no apê do Beto já vai acabar e não sei de nenhuma outra festa. Também não quero tomar em algum lugar que já tenha tomado, como na praia do Pepino ou na Lagoa. Hum, acho que vou para algum lugar exótico, tipo ilha de Paquetá. Isso, está decidido! Vou acessar o Paraíso num Paraíso!

Nossa, está bem quente hoje... Não são nem 9 horas ainda e o termômetro já marca 32ºC. Ótimo, vai ser legal curtir com o Sol. Peguei o metrô e desci na Uruguaiana. Estou no terminal de barcas, mas a barca para Paquetá vai sair agora e os portões acabaram de fechar!

“Por favor, que horas sai a próxima barca pra Paquetá?”

“Daqui a duas horas.”

“Puxa, posso pegar essa barca ainda? Ela ainda tá ali, é só correr que eu pego.”

“Desculpe, os portões já fecharam.”

E agora, para onde vou? Pensei em ir para Petrópolis, lá é lindo, mas já estou na estação das barcas mesmo, acho que vou para Niterói, vai sair uma barca em cinco minutos.

Estou no andar de cima da barca, ela sai daqui a pouco. Há poucas pessoas ao meu redor. Não aguento mais esperar, vou tomar agora! Quando a onda começar a bater vou estar chegando no outro lado da baía.

Não pensei duas vezes. Peguei uma pílula e levei à boca. Olhei ao redor, ninguém me notou. Peguei a garrafa e dei um gole n’água. Pronto, agora é só esperar impacientemente por uns quarenta minutos.

Não estou mais pensando no que a astróloga disse. Minha vontade de tomar a pílula é maior do que o medo que ela me incutiu. Vou boicotar qualquer tentativa sua de aparecer na minha cabeça. Quero apenas viajar.

Quando a barca finalmente chegou à Niterói, o tão desejado efeito começou a bater. Hum, como é bom estar nesse estado mental! Meu cérebro é inundado por um bem-estar inenarrável. É uma verdadeira orgia de cores. Nenhuma palavra seria capaz de descrever o prazer que sinto.

Peguei um ônibus, vou até Icaraí. De vez em quando tomo um gole d’água, está muito abafado hoje. Desci do ônibus, vim até à praia e vou ficar sentado embaixo dessa árvore.

Droga, aquele policial está vindo para cá. Disfarça...

“Bom dia”, disse ele, mecanicamente. “Posso ver seus documentos?”

Entreguei minha identidade. Ele passou os olhos rapidamente.

“O que você está fazendo aqui?”

“Ouvindo música e olhando a paisagem”, respondi enfaticamente.

Ele ficou uns cinco segundos olhando para a minha cara. Graças a Deus estou de óculos escuros. Ele ia dizer algo, mas o seu rádio fez um ruído e uma voz metálica começou a falar, não entendi direito, mas parece que estão informando sobre um problema no Centro ou algo assim. Então ele disse: “Tome cuidado, essa área é perigosa”. Devolveu minha carteira e retirou-se, deixando-me sozinho.

Que saco, me deu até uma bad trip agora. Estou tremendo. Fico muito sensível quando estou nesse estado, qualquer contrariedade me deixa perturbado. Droga, a onda estava tão boa… Não consigo voltar à onda boa. Vou fazer uma meditação e tentar relaxar, acho que se fizer um esforço eu consigo.

OK, não está funcionando... Preciso sair dessa, assim não vai dar! Acho que vou tomar a outra pílula.

Estava levando a pílula até a boca, quando ouvi uma voz me dizer: “Daniel Thomas, as portas do Paraíso estão fechadas para você”. Então surgiu um anjo vestido de branco, acompanhado por outro anjo. Retruquei: "Ah, é?... Vou arrombar o portão e entrar de qualquer maneira. Quero ver vocês me impedirem!" Tomei a segunda pílula num gole só. Depois de alguns minutos, a onda bateu maravilhosamente bem. "Deixem-me entrar!", gritei, chutando os portões, que abriram-se num só golpe. Os anjos observaram perplexos, mas sem me impedir. “Não disse que eu ia entrar? Vocês não podem me impedir de entrar aqui!” Um dos anjos me fitou com um olhar triste. “Seu passeio não sairá de graça”, disse ele. “Ninguém vem aqui sem pagar um preço”. Respondi, zombando: “Já paguei, custou cinquenta reais. Agora deixem-me em paz!” O outro anjo o puxou pelo braço. Saíram pesarosos e desapareceram, deixando-me sozinho. Nem ligo, estou nos jardins do Éden e nada mais me importa.

Hum, essa música nos meus ouvidos está divina!... É muito bom poder acessar as altas esferas através da música. Não queria estar em outro lugar! Como é bom viver… É uma felicidade absurda. Que céu azul maravilhoso! E aquelas montanhas lá no Rio, hipnotizantes... E essas flores, tão lindas… Vou dar um passeio pelas redondezas. Olha o Museu de Niterói! O Oscar Niemeyer é mesmo um gênio... Vou tirar umas fotos. Mas deixa eu tomar um pouco d’água, está muito quente e minha boca está seca.

Estou começando a suar muito, preciso achar uma sombra. Acho que vou voltar para a praia, lá tem umas árvores, vou sentar embaixo de uma e meditar ouvindo música.

Nossa, que água suja... Seria ótimo se essa praia fosse limpa, aqui seria mais lindo ainda. Mas tudo bem, está bom assim mesmo... Vou sentar aqui e ficar viajando. Eu gostaria sinceramente de poder ficar nesse estado o resto da minha vida. É uma sensação transcendental, não dá nem vontade de me mexer de tão bom que está. Sei que existe o Paraíso, eu estou nele…

Quero me tornar Um com o Universo. Vou fechar meus olhos e esquecer o mundo material. De olhos fechados sou transportado para as Altas Esferas. Permito-me voar, voo alto e chego em outros mundos, em outras galáxias. Fundi minha alma com essa música. Sinto-me eterno e pleno. Sinto-me tão perto de Deus...

E então, o meu coração, que estava até agora batendo muito rápido, parou de bater abruptamente.

Foi como se alguém o apertasse bem forte com as mãos e ele tivesse explodido, parando de funcionar. Sim! Sim! Não está mais batendo! É o fim da linha, e nesse momento, é a única certeza que eu tenho. Em menos de um instante, meu espírito percebeu que não terá mais meu corpo como sua morada.

Estou indo embora! Tudo que sinto nesse momento é Pavor. A perspectiva de ter minha vida interrompida por um motivo tão tolo me atemoriza. Oh, não! Não quero isso! Imediatamente me levantei do chão, num só impulso, com toda minha força. A minha vontade de viver (ou o meu medo de morrer) é tão grande que forcei minha alma com todas as forças a fazer o meu coração voltar a bater.

Ordenei ao meu cérebro energicamente: “Vamos, faça ele funcionar! Ainda não é a hora! Volte a bater!!!” Depois de cinco longos segundos, que mais pareceram uma eternidade… meu coração voltou a bater novamente.

Estou muito assustado. Estou respirando ofegantemente e minha circulação disparou. A música nos meus ouvidos de repente virou uma sinfonia satânica. Arranquei o fone da cabeça, preciso de silêncio agora. Olho ao redor, vejo alguns pescadores mais à frente, mas ninguém notou a minha presença. E se eu morrer aqui, agora?... Tomei outro gole de água, estou suando muito. O calor está realmente muito forte. Meu Deus, o que houve com meu coração?? Senti alguma coisa nele, ele parou de bater, eu juro! Oh Deus, perdoe-me, não me deixe morrer aqui! Não quero ir embora agora, muito menos desse jeito…

Aos poucos meu coração está voltando a bater normalmente, e começo a sentir uma paz interior. Tudo ficou calmo de novo, e voltei a sentir-me maravilhosamente bem. É que ainda estou alto. Tudo bem… Tudo bem… Acho que posso voltar a curtir a onda, antes que ela acabe. Mas é impossível não pensar no que acabou de ocorrer. Acho que super aqueci com esse calor todo. Será que eu iria morrer agora? Ou foi só um susto que os anjos me pregaram?

Olha aquela montanha perto do centro do Rio, o que é aquilo? Um incêndio? Não, é uma luz muito concentrada e clara, e não tem fumaça, não pode ser incêndio. É um carro? Não, a luz é muito grande para ser o simples reflexo de um automóvel. Comparando com os prédios, é uma luz maior do que a de uma casa. Acho que são os anjos... Eles estão fazendo um sinal, lembrando-me do que acabou de acontecer. Um luz me advertindo para não ir longe demais…

A onda começou a baixar e estou voltando ao estado normal. Sinto-me muito cansado. Nesse momento sinto uma grande apatia, nenhuma vontade sequer de sorrir. Meu nível de serotonina deve estar próximo do nulo. Estou péssimo. Uma tristeza sem fundo se apoderou de mim. O tombo foi muito alto, e estou num abismo agora, esforçando-me para voltar ao nível da superfície.

O melhor que faço é voltar para casa e dormir. Valeu a pena ter passado por isso? Não sei… Acessei o Paraíso sim, mas os anjos tinham razão: o passeio não sairia barato…

Muitas coisas passam pela minha cabeça. Por que não podemos todos ser infinitamente felizes o tempo todo?... Eu queria ficar naquela onda para sempre, mas o passeio nunca dura muito tempo e sempre tenho que voltar à realidade. Acho que a vida é isso mesmo, um jogo de luz e sombras, e não dá para fugir disso. Sem as sombras, como vou perceber as distâncias, os contrastes e as dimensões? As sombras servem para realçar as partes iluminadas.

Lembrei do pedido que escrevi no barquinho para Iemanjá. Pedi para que ela me ajudasse a conseguir ser bem sucedido na minha música. Agora compreendo que fui atendido hoje mesmo. Ela ajudou o meu coração a manter o seu ritmo. Só com sua batida ritmada é que a música da vida pode ser tocada e experimentada. Muito obrigado por mais essa oportunidade. A vida é uma grande sinfonia, e o Universo é o seu instrumento.

Denilson Freitas da Silva (45156)

28/05/11

Vamos ao teatro?

Olá, outra vez!
Eu e o António, em conversa, falámos na peça que está em cena no Teatro da Comuna, em Lisboa. "Do Desassossego", uma encenaçao e versão cénica do grande João Mota, numa interpretação de Carlos Paulo e Hugo Franco. Em cena até 12 de Junho, 4ª a Sábado às 21h30. 4ª é mais barato, 5 €... Pensamos em fazer a sugestão à turma. Quem quer ir?

Joana Maria

www.comunateatropesquisa.pt

3ª e ultima versao - conto individual

Aqui está a ultima versão do meu conto... Retirei a última parte e fiz outra ^^ O que acham? Comentem!

1 beijinho,
bom estudo,
até 4ª,
Joana Maria (nº40580)

http://pt.scribd.com/doc/56541095/3a-versao-e-ultima-Conto-Individual-escrita-criativa-flul

O Principezinho

"- Por favor... Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava [...], mas não tenho tempo. Tenho amigos por descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
- E o que é preciso fazer?
- É preciso teres muita paciência, Primeiro sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada [...] todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto..."

"Principezinho", Saint – Exupéry

Estou cansada, demasiado cansada, exausta. Um nó de sentimentos mora dentro de mim e não consigo fazer-lhe frente. Não consigo dominá-lo, não consigo ter pensamentos lógicos, normais. Já foi há um ano, mas nem dei por dia nenhum passar.
Dou-lhe no máximo um mês…
Foi o prazo estabelecido. O Dr. Mendonça dava-lhe um mês de vida. A ele, ao meu bebé. Eu, que esperei nove meses para conhecer o meu bebé; eu, que tinha vivido cinco anos perfeitos com ele, tão perfeitos!; eu, que esperava ansiosamente pelo seu primeiro dia de escola primária, pelo seu crescimento, pelas suas amizades, pelas suas descobertas… eu, que lhe dava a eternidade. Mas agora, a eternidade só podia durar um mês. Na melhor das hipóteses, claro. Podia durar menos, podia partir antes do tempo.
Dou-lhe no máximo um mês…
As palavras ecoavam e não me saiam da cabeça, dos ouvidos, da vida. E ali estava o meu bebé, sem saber o que se passava, brincando com o seu melhor amigo, como em todos os dias. O urso João acalmava-o nas noites de sonhos maus, acompanhara-o na sua primeira ida ao dentista e viajava sempre ao seu lado no carro, cinto posto e tudo! Agora, o urso João acalmava-me a mim deste sonho mau. Só queria acordar, abraçar o meu bebé e saber que aquilo não era real. Mas isso não aconteceu e o mês ia passando. Cada vez que olhava para ele, tranquilo nas suas brincadeiras, cada vez que penteava os seus caracoizinhos louros de anjo, cada vez que o deitava na cama e o aconchegava, um sufoco no peito tirava-me a respiração. Não sabia se era a última vez que ele brincava, ou se o voltaria a pentear e a sentir o seu cabelinho, tal e qual o cabelo do pai, ou talvez nunca mais o deitasse naqueles lençóis de comboiozinhos ou mesmo noutros quaisquer.
Não penses na data, amor. Só é pior para ti. Se não soubesses de nada, de certeza que farias a tua vida normal. E mesmo sem data, podia-lhe acontecer alguma coisa. Pode sempre acontecer qualquer coisa a toda a gente. A diferença é não sabermos quanto tempo ainda temos. O Miguel continuava a tentar dar-me forças. Dava por mim em pranto a meio da noite e nunca se cansou de tentar, mesmo que dissesse o mesmo, noites seguidas. Continua a viver como viveste estes cinco anos. Foram bons. O tempo está a passar, por isso aproveita o tempo que ainda tens com o nosso bebé. Até pode durar mais, não sabes… Agradece estes cinco anos, agradece termos tido a hipótese de o conhecer.
Eu não percebia como conseguia ele estar tão calmo. Mas ele era assim e tinha sido essa sua calma que me fizera apaixonar por ele, tinha sido a sua paciência que me fizera casar com ele seis anos antes.
20 de Março de 2010. O dia amanheceu triste. Menos uma borboleta para celebrar a festa da primavera. Bateu as asas e voou para bem longe. Deixou um vazio, como se sempre tivesse existido, como se eu sempre o conhecera.
Hoje, um ano depois, recomeça a primavera. Eu estou em constante inverno. Mesmo que o sol doire lá fora, cá dentro faz frio, tanto frio! E eu estou cansada de mim. Estou cansada de me sentir assim, de não conseguir pensar em mais nada, de não conseguir dormir, de não conseguir comer, de não viver. Tenho noção que parei no tempo. Tenho noção que me tornei desleixada, que já não sou a companhia certa para o Miguel. Ele consegue continuar o caminho. Consegue estar bem, sorrir, ser o Miguel que era, ser o marido perfeito. Eu não. Mas já nem me importo. Somos companheiros de casa, de vida e de silêncio. Abraço-o, choro e adormeço. Acordo, choro e abraço-o.
E se saísses de casa, amor? Talvez ainda não esteja na hora de voltares ao emprego, mas procura uma actividade… Vai à biblioteca, vai passear com as tuas amigas, vai fazer voluntariado…
A manhã estava quente e cheia de sol. Fiz a vontade ao Miguel, vim passear. Mal saio de casa, as lágrimas começam a turvar-me a vista e respiro fundo. Já chega. Já passou um ano. Tenho que conseguir continuar. Repito para mim.
Aquela palavra que o Miguel usara… “Voluntariado” … Na minha juventude tinha feito voluntariado. Com animais, com idosos, com crianças… Sim, talvez fosse uma boa ideia! Estaria ocupada e a ser útil… Sabia que havia um orfanato a uns quarteirões do meu prédio. Podia-me oferecer para dar explicações, ou para as horas das refeições, ou para o que fosse preciso. Dirigi-me, passos decididos, até ao portão da casa. Lá dentro um pátio, um jardim, crianças, o carrossel a girar, duas gémeas a saltarem à corda, crianças, os baloiços a subir, a descer, a subir, a descer, crianças, o escorrega amarelo por onde deslizam gargalhadas rápidas, crianças… E oh! O meu bebé. Lá está ele a dizer-me adeus com a mãozinha, os seus caracóis dourados, lindo, tão lindo, a rir, a outra mão a abraçar o urso João, os ténis que comprámos quando passámos na montra da loja de desporto. Quero aqueles ténis mamã, quero jogar à bola com aqueles ténis.
- Bom dia! Posso ajudá-la? Vem visitar alguma criança?
Uma voz, do outro lado do portão, interrompeu-me os pensamentos. Uma senhora de bata cor-de-rosa aos quadrados, olhava para mim, sorridente. Olhei de novo para o pátio. Onde estava o meu bebé?
- Bom dia, não, não venho visitar ninguém… - não sabia o que responder. – Acha que seria possível falar com a assistente social do orfanato?
- Se não estiver em reunião acho que terá muito gosto em recebê-la. Vou procurá-la. Entre e espere um pouco. Como é que se chama?
- Maria.
Entrei. Sentei-me num banco do pátio a olhar aquela alegria, aquele vozear, aquela vida.
- Bom dia! Queria falar comigo? – uma jovem sentou-se ao meu lado, no banco.
- Sim, sim. Maria, muito prazer. Eu soube do orfanato e como tenho algum tempo livre… pensei que me poderia oferecer para ajudar, no que fosse preciso… Não sei se precisam de voluntários…
- É uma atitude muito louvável, a sua, Maria. É pena, já temos as tarefas todas asseguradas… Mas penso que duas mãos são sempre bem-vindas. Alguma vez fez voluntariado antes? – acenei que sim. – Como deve compreender, não a conhecemos e nos dias que correm é preciso ter muito cuidado. É preciso velar pela segurança das nossas crianças. É preciso preencher uma ficha com os dados pessoais e depois de um período de experiência é que poderá ser integrada nas actividades da casa. Está disposta a isso? – acenei afirmativamente. - Tem filhos, Maria?
- Tive.
- Oh, lamento, o que quer que tenha acontecido… Sabe que nos chegam muitas pessoas em fase de luto para trabalhar com crianças. Eu desaconselho, desculpe-me a sinceridade. Estas crianças não são substitutas de nenhum filho perdido, nem lhe vão trazer de volta filho nenhum. É preciso estar muito bem resolvida para conseguir ser útil, sem se magoar.
- Ainda assim… Não sei se já ultrapassei completamente tudo, como compreende, nem sei se ultrapassarei algum dia. Não posso ajudar em coisas pequenas e logo vemos como me dou?
- Talvez, sim. Mas fica o aviso, Maria. Não sei se vai conseguir. Pode conseguir e, nesse caso, ajuda alguém e ajuda-se a si, mas não fique triste se não conseguir. Olhe, podemos tentar integrá-la nas horas de tempos livres, no recreio. O que lhe parece?
Ali estava eu. Por onde começar? Como chegar àqueles miúdos? Não me conheciam, não os conhecia… Não iam interromper as suas brincadeiras para me conhecer. Esperei. Olhei em volta e vi um miúdo, pequeno, num canto sentado. Tinha um caderno ao colo e pegava num lápis. Estava sozinho e sentei-me ao lado dele.
- Estás a escrever uma história?
- Sim. Sou inventor.
- Se calhar queres dizer “escritor”… Os escritores é que escrevem histórias.
Não me ligou. Não interessava a palavra certa. Certo era que criava histórias.
- Era uma vez um menino, um menino feliz. Pegou num balão e voou, como sempre quis. Era uma vez um menino, um menino contente. Só queria ler e escrever e ser muito inteligente. Era uma vez um menino, um menino bonito. Só queria um amigo, nem que fosse um burrito. Era uma vez um menino, um menino normal. Não queria nada de nada e fazia tudo mal. Destes quatro meninos só um é real. Agora adivinha tu, qual é, afinal. O último de todos foi o que mais sofreu. Já adivinhaste? Esse sou eu.
Não sabia o que dizer àquilo… Seria a sua forma de se apresentar? - Foste tu que fizeste? – comecei por perguntar. – Tens mais histórias? Deixas-me ver o teu caderno?
- Sim, está cheio de histórias… Toma!
Peguei no caderninho. Vazio, branco da primeira à última página.
- Como te chamas?
- Era uma vez um menino, um menino feliz. Pegou num balão e voou, como sempre quis…

25/05/11

0/8

E revelou-me ao ouvido: [sic]

“Quando entreviu que tudo era demasiado real, saiu de casa porque lhe apeteceu. Tratava-se de uma madrugada igual às outras; a diferença residia no singular interior, logo acima da consciência, que concedia um inadvertido lugar à exacerbada paixão por todos os elementos que permitiam a estrutura saudável da comum existência. Escolheu apanhar o autocarro e depressa verificou que a conformidade da rotina mantinha-se fiel. A força com que o solo empurrava o seu corpo, o ar que perscrutava as células do casal de pulmões, combinado com as invisíveis partículas oxigenadas de hidrogénio ao quadrado, bem como a saída e o regresso aos pontos de equilíbrio, do acto de caminhar, participavam nas reformadas sensações, agora conscientes, daquele estado. A mancha informe que é olhar para o exterior de um transporte em movimento dissipou-se e a visão deixara de ser totalitária, permitindo dar conta de componentes que perderam a surdez provocada pelo ruído visual da cidade. Era possível enquadrar na realidade; como se de uma fotografia, a grafia de luz que escreve sobre o tempo embalsamado, tratasse, potenciando a contemplação dos fragmentos. A máquina, desequilibrada, movia-se tão velozmente que a paisagem se lhe apresentava ao som da primeira Gnossienne, acabando por dar razão a Satie quando a compôs. Apertou o botão que dava significado ao abrandamento e saiu no centro, apercebendo-se, quando voltou a olhar, de que não havia ninguém dentro do autocarro. O despoletar desta paixão levou-lhe até ao local onde se encontram todos os estados de concentração: a marginalidade contextual; caiu no alheamento e nem se apercebeu da saída de quem conduzia. Foi o intenso amarelo de um grupo de narcisos semi-abertos que lhe fez caminhar a passo largo até a uma florista encontrada num dos cantos daquela praça. Estava fechada, o céu dispunha, ainda, as tonalidades de azul mais escuras, mas ficou a observar as míticas flores no pequeno vaso que fora útero, através do vidro, esse que nos engana quanto à liberdade. Pelo tamanho das flores constatou que eram antigas, que o bolbo, enterrado, já tinha despertado várias florações, num círculo sazonal que teve começo noutro bolbo, e assim por diante. Afinal, para além de meros narcisos, eram histórias da natureza que ficam por contar. Poder apreciar o esplendor, ver como as coisas são e que linhas as tecem, estava agora no seu horizonte. Apercebeu-se de que alguém dobrara a esquina, pois sentiu na pele uma intensidade diferente da brisa, mas foi tão rápido que não houve tempo para lhe poder cumprimentar. Há sempre uma estranha cumplicidade para com o outro quando nos encontramos sozinhos e este dá um sentido à nossa existência; quase nos mesmos moldes de um encontro com alguém desconhecido que fala a mesma língua que nós, mas numa terra estrangeira. Regressados, não vemos esse estranho. Os momentos de suspensão da normatividade estão cheios de fissuras onde é possível encontrar respostas que matam perguntas. Foi então que se deu conta do enorme graffiti que habitava na parede lateral de um edifício abandonado. Era transparente. Foi escrito na sujidade da parede, formando uma zona limpa, e incolor para todos os efeitos. Sem tinta, podia ler-se: ‘Morre enquanto amas.’. Que estranho, pensou, tinha a certeza que aquilo não estava ali ainda há pouco. Decidiu, então, atravessar a praça na diagonal, tendo o cuidado de pisar a fronteira entre o branco e o preto das pedras, e já se podia ver a ofuscante estrela do dia. Repetiu o percurso, uma vez que se desequilibrara várias vezes, e voltando à posição inicial tentou verificar se tudo estava no mesmo lugar – pois, só o tempo passara. Ali perto havia um chafariz de curioso aparato, mas longe da semântica aquática. De todo o modo, não conseguia descrevê-lo para além da semelhança com o interior de uma rocha. Aproximou-se para se poder acalmar com o refrescante olhar em direcção à água e pousada no fundo do chafariz estava uma pedra negra. Arregaçou a manga e, imergindo o braço na água, conseguiu apanhá-la, deixando-a secar ao sol na palma da sua mão. De superfície espelhada, muito polida, a pedra absorvia toda a luz em seu redor. Nunca vi uma pedra tão bela quanto esta, disse, guardando-a no bolso esquerdo enquanto olhava em seu redor para ter a certeza que ninguém visse o que estava a fazer; por não dar atenção suficiente às leis, não poderia saber se cometia alguma infracção. Mas ainda não avistava ninguém. As pequenas ondas provocadas pelo seu braço perdiam força até não formar mais distúrbio na superfície da água e foi aí que deteve a sua atenção. Inclinou-se para poder observar o seu reflexo e, suspirando, ali ficou. O reflexo na água era lindíssimo: vestindo apenas céu, nuvens, e azul profundo.”


1ª versão - n.º37966.

23/05/11

Conto colectivo XIX

- Sugiro acabar com toda esta história!
- Que história, primo António?!
- A do Miguel e a tua! Como podes declarar que me amas, mais e mais, vendo-te nos olhos o fantasma do Miguel, sempre o Miguel! Bye, bye, bebé!

António desligou-me o telefone. O que seria de mim? O que é que ele queria dizer? “Bye, bye, bebé”? No dia seguinte apercebi-me ao que é que ele estava a referir-se. Levei uma tareia tão valente que fiquei em coma durante dias! Vim a saber, quando finalmente acordei, que os amigos do primo António encontraram o meu Miguel e trataram-lhe do sebo, de tal maneira que não lhe puseram mais a vista em cima. Aí sim, a minha vida ruiu…

Nunca irei esquecer aquela manhã no hospital de Guadalupe. Estava sozinha num quarto branco, iluminado pelo Sol brilhante daquela terra enfeitiçada. Mal acordei, comecei a ouvir uma voz alucinante a entrar pelos meus ouvidos adentro. Que infernal aquela voz! Era a cigana que me repetia: “Vais viver sozinha até aos oitenta anos… sozinha até aos oitenta anos… oitenta anos…” Aquela voz entontecia-me. Não podia ser verdade! O que seria de mim sozinha? Quem sou eu sem um homem a meu lado? Não! Preciso de um homem, quem quer que seja, Miguel, primo António, alguém! Sozinha? NÃO!

E de repente, interrompendo os meus pensamentos tortuosos, entrou no quarto um enfermeiro. Trazia a bata regular da sua profissão, ainda que algo de invulgar lhe rasgasse o hábito de que era feito o monge: uns olhos verdes lindíssimos, a barba bem aparada, um sorriso tão simpático.
- Ora muito bem, disse ele, vamos lá ver como está a funcionar esta cabecinha.
Sentou-se na borda da cama e começou a analisar uns papéis.
- Como se chama?, perguntou.
- Chamo-me Maria, respondi.
Sorriu-me, enquanto mexericava na papelada, e preparou-se para uma nova pergunta:
- Quantos anos tem?
Um enorme silêncio instalou-se no quarto. Até a telenovela emudeceu.
- Maria, quantos anos tem?, repetiu o enfermeiro após alguns segundos de espera.
Segurei-lhe na mão com força. Com a outra percorri-lhe a pele do braço, devagar. E foi então que me vieram à cabeça as palavras da vidente.
- Oitenta, disse eu, tenho oitenta.



António Seabra
Cláudia Ramalhosa
Cristina Branco
Joana Leotte

Aula com Hélia Correia


Foi retirado o vídeo que aqui constava.


Artigo n.º 79 do Código Civil Português: Direitos de Imagem.


[Heduardo KiesseJoana MariaDiogo Esteves]