15/04/11

Conto Individual - Segunda Versão

Círculo do Medo vers ii


Fábio Cruz 39021

Conto Individual - Confessionário

Confessionário
Estava tão longe, que só a sentia em pensar. Duas nuvens mais tarde reencontrá-la-ia. Caminhava, o homem, com a sombra do dia quente a arrastar-lhe o medo pelas costas. Como estaria ela? Como lhe pareceria ele? Cada passo que dava levantava uma questão, e seus pés pesavam por não ter resposta, e seu caminhar era cada vez mais lento. Cruzou a rua e viu um casal enamorado sentado no passeio. Olhou o céu e viu a lua a espreitar. Levou a mão ao bolso e retirou recordações. A sua foto. Transpirava memórias a partir do seu retrato. E despiu o casaco, porque o seu sol aquecia-o.
Encontrou a sua casa era quase amanhã, e ela não estava. Teria faltado ao prometido? Teria desistido pelo seu atraso? Já não conseguia rebobinar os seus sentimentos. Sufocava da sua ausência. E, agora, que esperava reatar a sua relação, encontrava-se sozinho. Utilizou a chave que ela lhe dera quando ainda se amavam, abriu a porta do prédio, subiu as escadas e entrou em casa. O hall de entrada parecia-lhe mais sujo, agreste, como se um tufão de sensações tivesse ali devastado. Olhou o mesmo espelho e viu uma cara diferente. O quão estava nublado! Levou as palmas ao rosto e vieram-lhe lágrimas às mãos. Caminhou à janela e respirou o ar da rua, enquanto gotas de água caíam em cima da sua cabeça. E reparou que chovia. Por dentro, por fora. E, pelo tempo que tempera todo o seu feitio temperamental, pensa nela e porque ela o fugiu, todo o mais sentimento que cresce, ocupa-o como um vazio. «Escreves sensações em mim», pensou.
Caminhou até à cozinha. Aqueceu um balde de chá. Bebeu goles imprecisos de coragem. Ela era o único pássaro que pousava na sua janela. Que lhe diria quando voltasse? Será que voltava? Sentou-se numa cadeira e olhou em volta. A mesma mesa, as mesmas prateleiras, as mesmas recordações quentes. Um papel amarrotado, deitado no chão. Pousou a chávena, como quem aceita uma sentença e pegou-o. De a conhecer asseada, sentiu um calafrio. Deixou-se ficar perto, mais perto, sem mexer no tempo. Desdobrou--o:
‘Meu muito querido perdoe-me a minha ausência. Está para nascer quem será mais feliz do que nós algumas vez fomos. Escrevo-lhe esta carta, enquanto as horas passam no meu relógio. Eu nunca mudarei. Para mim a hora não passa, porque eu nunca mudarei. Peço-lhe que sare a ferida que lhe criei nesta distância, prometo não mais o magoar. Padecerei sempre de ser igual, e longe de mim querer magoá-lo com as minhas frustrações. Vivo as minhas horas como uma aflição. Não me consigo estabilizar. Nunca notabilizei sentimentos, meu amor. Perdoo-lhe o seu rancor, mas prefiro viver só.’
Deixou cair o papel ao chão, como quem salta de um precipício. Sentiu todas as portas fechadas ao redor da sua alma, e um misto de sensações apoderou-se dele. Poderia ter bebido mais do seu sorriso. Mas, enquanto caminha de volta, para sair, olha uma última vez o seu rosto ao espelho e procura sentir a sua falta. Encontra-se tão vazio que nem sente saudade, o seu corpo imóvel por tê-la perdido. Os seus olhos brilham, como as estrelas lá fora, procurando dar luz a um rumo novo. Desconhece-se; sente-se dorido e consumido. Como gotas de agua baldia que ao sol se evaporam. E, enquanto abre a porta para sair, encontra-a, entrando.
Os seus olhares vagueiam, como um carrossel que carrega histórias mudas. Ela arrepende-se com o olhar. Ele aceita as suas desculpas. E, olhando-se, como quem se conhece de uma vida, beijam-se. E não se tocam. Ele sorri. Ela retribui, e molha seus lábios, afigurando uma onda que rebola na areia de uma praia feliz.
«Acho que viver é desenhar sem borracha»
«Estás disposta a dar-me a mão neste retrato?»
Penetraram-se seus olhares e seus lábios sorriram como aves reconfortadas em seus ninhos. Sim. E todo ele era impune e tinha uma história sem começo.
«Amo-te»
«Também te amo»
Ele não disse a verdade. Ela mentiu. Tudo o resto germinará silenciosamente no interior de cada um até nova explosão.
E então, abraçados com a eternidade, os dois amantes selaram o destino.

Aluno nº 40834

12/04/11

Curso EC Casa Fernando Pessoa

                        CURSO DE ESCRITA CRIATIVA com
                                                                                    Patrícia Reis

Dias 10, 16, 23 e 30 de Maio, das 18h30 às 20h00
Inscrições entre 12 de Abril e 7 de Maio
Mínimo (30 pessoas); Máximo (80 pessoas)
Preço: 30 euros

PROGRAMA
Primeira sessão:
Porque estamos aqui? Porque escrevemos?
De que gostamos e de que não gostamos?
Ler como função primordial (trabalho essencial?) de quem escreve.
Exercitar a escrita como um pianista exercita todos os dias as teclas brancas e pretas. Talento sem técnica é como uma lâmpada fundida?
Leitura dos conselhos ao jovem escritor de Joyce Carol Oates: livro A Fé de um Escritor.

Segunda sessão:
Discussão sobre textos criados numa vertente positiva: crítica construtiva. Recomendação de leituras.
Leitura de um texto curto para observações (Mário de Sá Carneiro, Clarice Lispector, Fernando Pessoa).
A desmultiplicação de gostos: evocando Pessoa podemos ser vários escritores e leitores, experimentando.
O escritor profissional e o amador? Existe esta diferença?
Leitura de textos trazidos pelos alunos.

Terceira sessão:
A importância da pesquisa, do diálogo, da caracterização das personagens.
Sugestões para resolver bloqueios de escrita: reformular a ideia de ficção para uma ficção epistolar.
Fazer uma curta experiência de como um conto pode evoluir a partir de uma frase com a contribuição de cada um: uma corrente que compõe a história.
A importância do diálogo, da caracterização dos personagens e como tudo pode mudar com a utilização de linguagens distintas.

Quarta sessão:
Discussão dos textos propostos pelos colegas.
Inspiração versus trabalho.
O mercado editorial.
As vantagens e desvantagens do exercício da escrita partilhada em blogues e sites.
Entrega de prendas-livro para os participantes.

Patrícia Reis nasceu em 1970, começou a sua carreira jornalística em 1988 no semanário O Independente, passou pela revista Sábado e realizou um estágio na revista norte-americana Time, em Nova Iorque. De volta a Portugal, é convidada para o semanário Expresso, fez a produção do programa de televisão Sexualidades, trabalhou na revista Marie Claire, na Elle e nos projectos especiais do diário Público. Editora da revista Egoísta, é sócia do atelier de design e texto 004, participando em projectos de natureza muito variada. Escreveu a curta biografia de Vasco Santana e o romance fotográfico Beija-me (2006), em co-autoria com João Vilhena, a novela Cruz das Almas (2004) e os romances Amor em Segunda Mão (2006), Morder-te o Coração (2007), que integrou a lista de 50 livros finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, e No Silêncio de Deus (2008). A novela Antes de Ser Feliz (2009) é o seu livro mais recente.

Conto Colectivo - Parte VI

         Errei ao contar à vidente que o Miguel não foi o único, mas o que maior impressão me causou. No esforço de fuga a uma vida presa na rotina ao lado de um primo afastado - um tabu.
O maior problema de todos é o facto de eu me ter apegado à vida rotineira, e agora perder-me nessas ruas repletas de futilidades, no meu quarto abarrotado com embalagens de gelados, livros, cartas, velas e restos de uma vida imprevisível. Um pormenor que nem a própria vidente deve ter previsto. Não obstante, deve ter razão e isso fez-me furiosa o suficiente para pensar que o casamento com o meu primo não passou de uma tremenda perda de tempo. "…Não há volta a dar…" Por mais que me tentasse abstrair desta frase, não lograva. Era um pensamento constante, daqueles que não envelhecem na memória. Apesar de tudo, acreditei que havia um caminho diferente. Um rumo concebido à imagem de um amor impermeável às rasteiras do destino. Nunca me conformei com o facto de alguém assumir para si o dom de espreitar o futuro dos outros. Para mim foi sempre mais fácil adivinhar o passado. Nunca tive nenhum.
Aquele pensamento perpassava na minha cabeça numa noite de insónia que prometia ser longa. Infelizmente reparei que a embalagem de gelados acabara. Dizem que coisas frescas fazem-me bem à memória. Mas estava com tanto sono que não consegui percorrer o corredor sem ir contra as paredes. Liguei a televisão para distrair as horas que não passavam. Por entre novelas, filmes e séries, parei num canal que quase me fez deixar cair o comando da mão. Um vidente propunha revelar o futuro dos telespectadores. Pego de imediato no telefone a fim de comprovar a veracidade daquilo que a sibilina previu.
Enquanto a chamada demorava a ser atendida, pensei no quão sou parecida àquelas porções de gelado que se derretiam até desaparecer por completo. A vida me tomava em goles e me foi pesando a idade. Peso pesado, presumo. Uma senhora simpática ocupava-me do outro lado da linha, informando que aguardasse. Já aguardei tanto tempo na minha vida, senhora. Pousei o auscultador na mesa-de-cabeceira, ao lado das fotos de família e de paixões fracassadas emolduradas e envernizadas em felicidade. Disse para comigo mesmo: “talvez isto tudo não passe de mais uma tentativa inútil.” Se o vidente me destinar um futuro assombroso, pecarei por me afundar em lágrimas, fechada e enclausurada no meu castelo a sete chaves. É o comum que há nos bruxos: mexem na vida das pessoas. Se me fosse destinado um prémio do Euromilhões, talvez saísse desta monotonia para comprar um folhetim. Porém, se me perco nas ruas da amargura, com previsões viciosas, o mais certo é substituir o calor dos amores por mais uma embalagem de gelados. Fria. E enquanto esperava que o vidente da televisão falasse comigo, comecei a imaginar como teria sido a minha vida se nunca tivesse metido os pés naquela feira. 

Aluno nº 40834
Eduardo Pacheco
Bruno Jacinto
Ricardo

08/04/11

Eternidade provisória



Cansado de inventar silêncios na boca dos outros, pegou na vassoura. Varreu os pensamentos fora do prazo de validade, limpou a voz rouca que vinha de baixo da folha ainda em branco. Ruídos. Motores à velocidade de engarrafamento. Esfregou as manchas de insónia, cor de sol, coladas à página onde dormira. Abriu as janelas na ânsia de se arejar por dentro.



Voltou ao quarto para se certificar de que ela ainda estava deitada. Pelo caminho, fotografou os passos que foi largando pelo chão. Ao chegar, reparou que ela continuava deitada, desperta, porém deitada, a espreguiçar restos de sono por entre os lençóis. Soergueu-se tentando afastar o sono da cara com as mãos e disse: Hoje vou procurar o meu lugar noutro corpo em solidão, quando conseguires fotografar a minha ausência, deixa os fragmentos de luz em cima da mesa da cozinha. Nesse retrato, irei corrigir os dias em que não te amei. Irei buscar coragem para te ler um poema em voz alta sem receio de deixar cair as cordas vocais pela garganta adentro. Tal como hoje, não estive aqui. Não dormi apenas contigo. Todos os homens que provisoriamente me amaram para sempre, estiveram connosco neste quarto, hoje, enquanto fazíamos do amor uma sala de convívio para as nossas ilusões. Porque afinal, acredita, a distância é o momento mais perto de ti. E quero tanto estar longe!



Aquela declaração entrou-lhe pelos tímpanos de uma forma abrupta, demorou alguns segundos até encontrar fôlego e sentido para a ausência de sentido daquelas palavras. Sem saber exactamente o que responder, num tom desengonçado mas determinado: Vai! Quero lá saber! Ando há uns dias para te propor isso mesmo. Pega nas tuas coisas e faz-te desaparição! Inventei o esquecimento para não trazer de volta os teus gestos, a tua boca sempre à beira do silêncio, as curvas onde o teu corpo é mais veloz, é mais isto que agora me negas. Vai! Não vou regatear nem mais um beijo! Os que te dei, alguém há-de roubá-los da tua boca e quando um dia, tarde, te lembrares de mim, verás que todos os corpos em solidão foram encontrados por alguém. De que te vai servir, em frente ao espelho, tentar preencher a lápis os teus olhos cheios de vazio? Não me apetece fotografar a tua ausência. Os dias em que não amaste, alguém viveu no teu lugar, alguém sorriu com os teus lábios, escreveu com os teus dedos, amou com toda a força, os pássaros batendo asas no lado esquerdo do teu peito. Sabes, não me importo de repetir diferentes versões do mesmo sentimento desde que, a última versão me traga palavras que me conduzam a um conto de verdade. Isto é o rascunho, tem calma, por favor!





2ª versão


- conto individual -


Pacheco Eduardo



O PRINCIPEZINHO

O PRINCIPEZINHO

1ª versão do conto individual

Não se sabe bem o ano, apenas que era e que foi. Foi num amontoado de gente vivente numa terra lambida pelo mar. Não se sabe como é que foram lá parar, crêem-se sempre nascidos daquele areal. O mar ia e vinha e era dele que aquela gente vinha e partia. Os homens iam pela madrugada adentro, penetravam o mar adentro. Se o mar não gozasse, escarrava-os contra as pedras, fundava-os no seu fundo. As pedras eram montanhas polidas que os matavam contra o mar. Os homens só iriam e viriam se as mulheres ali estivessem a criar as crias, a bordar e a rebordar as redes, a semear e a florir toda a vida e toda a eternidade para além do mar. Como em toda a noite antes das madrugadas de pesca, as pedras estremeciam. A fertilidade daquela gente fervia pela sagrada perpetuação da espécie. O carinho daquela gente flutuava pelo encanto da espécie. A felicidade era amarfanhada pela angústia da madrugada. Era mais um dia sem saber do próximo. Nesses dias, depois da ternura vincada, depois dos homens irem ver o nascer do Sol no alto do mar, a alvorada alumiava a figura das mulheres a bordar com os seus menininhos acocorados nos seus colos, a contar as lágrimas caídas e os nós feitos. Passava-se o dia, chegavam ou nunca mais voltavam. Fazia-se, criava-se, acarinhava-se o menininho para se afundar no mar. Nunca se soube de um de barbas brancas que tivesse sobrado, nenhum que tivesse a pele curtida de quem tem a grandeza do seu pequeno mundo para contar. A avó viúva e a mãe dos filhos emudecidos crêem que o mar encerra a vida e a morte. Tinham que encontrar uma verdade que legitimasse o sofrimento do desaparecimento dos seus e que justificasse o conformismo viciado de vidas que tão bem conhecem os ritmos, os desafios e a dor aos quais se têm de prestar. Imaginava-se então que o verde cerrado, que nos fecha os braços, nos aperta os passos e nos cega o céu, não poderia ser atravessado. Vivia-se entre a escuridão da mata e o sem fim do mar. Num alvorecer desses, em que a lua se firmava ao canto do céu, as mulheres que baloiçavam e bordavam viram surgir lá longe no mar uma concha. Esfregaram os olhos orvalhados. Poisaram as redes bordadas, deitaram os menininhos na areia. A concha era colossal, pensaram no telhado que aquela concha poderia dar para uma casinha de viúva. As mulheres andavam no silêncio húmido do amanhecer. Avistaram um volume vivo aconchegado na concavidade da concha. Um bicho. Um bicho mais branco que a carne do peixe afogado em água quente. Era um polvo encolhido e morto. Ora, um polvo não teria um tufo de fios da cor de fogo. Fios que lembravam os fios da rede a serem queimados. As ondas traziam a concha para mais perto da praia e as mulheres, já de joelhos dentro da água, apercebiam-se das suas parecenças com o bicho, ou a bicha. Lembrava uma menininha nascida há pouco tempo. Ainda gorda do leite da mãe e do peixe mastigado. Aquilo não era polvo, nem menininha enroscada em linhas de bordado. Parecia ser uma mulher gorda como os bebés, cabeluda como um ouriço-do-mar que ataca, de carne tenra como um peixe bom e branca como morta. As mulheres amontoaram-se a volta daquilo. Cochichavam. É, é um corpo de gente. Alguém palpitou a possibilidade de ser mais um dos corpos inchados e crus que de vez em quando atracavam na praia. Nunca se tinha visto uma pele de morto tão brilhante, tão polida. A sombra e o murmúrio das mulheres levaram o corpo a mexer-se. O movimento do corpo afastou as mulheres de espanto. Mexia-se tão vagarosamente. A cabeleira ajeitava-se e desvendava a humanidade da bicha. É, é mulher. Uma mulher nua a dormitar numa concha. As pálpebras, atordoadas pela primeira claridade, abriam-se com preguiça. Que assombro que foi olhar naqueles olhos de mar raso. Não, não era como nós. Os seus pés e as suas mãos pareciam ser macios, as coxas eram rechonchudas, o ventre e os peitos pareciam virgens, os braços finos e moles e aqueles cabelos que nunca mais acabavam. Quem borda redes, cozinha peixe e cria filho não pode ter o cabelo desse jeito, se não um dia borda com cabelo, enforca o peixe e engasga o filho. Quem trabalha não tem braço e perna mole. Quem faz e tem menino não tem o peito assim. Não, a bicha não era como as mulheres. O corpo desenrolava-se e desequilibrava-se em cima da concha. Com um sorriso olhou para o seu público. As mulheres não tiveram como não retribuir a cordialidade, acenaram com a cabeça e com um rasgar da boca incrédula. Era uma jovem tão estranha, era uma mulher outra. A estranheza não as enojava, nem lhes metia medo. Primeiro pensaram no quão feia era ela, tiveram pena da sua fragilidade, da sua inutilidade. Umas ajudavam-na a pisar na areia molhada, outras traziam a concha na cabeça. Os menininhos já acordados, amassados pelo sono, olhavam-na com a curiosidade de quem vê um bicho novo, nunca antes visto. Podia ser uma irmã, ou até uma mãe. Teria um homem. Mas não, ela não é daqui. Depois de olhar a prainha, as casinhas a margem do mato, coradas pela manhã, a lentidão da bicha mergulhou o olhar de mar raso na escuridão verde. As mulheres viam a estranha a aproximar-se do proibido, sem qualquer hesitação, como se o seu corpo fosse fantasticamente atraído para a profundeza húmida da mata. Talvez fosse bicho-do-mato retornado. Ninguém impediu a mulher de desaparecer. Os cabelos se iam prendendo aos galhos, os pés brancos afundavam-se na lama de folhas nunca antes alumiadas pela luz. Aos poucos, a mulher era cativa da mata. As mulheres só lhe viam as pontas dos cabelos claros presos pelos ramos floridos e pesados. Nunca mais lhe viram mais nada. Sumira. Quando os homens voltaram não puderam acreditar no que lhes contavam, na bicha-do-mato gorda e meio morta entrando pela mata a dentro. A curiosidade fê-los cortar algumas árvores, fê-los atrever-se a penetrar a mata. Não voltaram a ver a bicha, mas descobriram a jabuticaba, a cereja, a pitanga, a manga, descobriram a sombra boa da árvore imensa, descobriram mais bichos-do-mato. Viram os vermelhos, os amarelos e os azuis da plumagem daquele pássaro. O roxo e branco daquela flor abraçada ao tronco da árvore. O verde já não era só escuridão, era as folhas das árvores altas a sombrearem as folhas das árvores baixas, a criação de tantos verdes. O verde podia ser cintilante. E tudo era grandioso e minucioso. Aquela árvore ali deve ser do tamanho de cinco mulheres em pé, umas sobre as outras. Nem sequer um homem dos grandes conseguiria abraça-la inteira. A grandiosidade da mata correspondia com a enormidade das pedras que limitavam a praia e com a imensidão do mar. Desde então, iam descobrindo o além-mato.