10/05/11

You are Welcome to Elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte   violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas   portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

                                Mário Cesariny

Confessionário (2ª versão)



   Estava tão longe, que só a sentia em pensar. Duas nuvens mais tarde reencontrá-la-ia. Caminhava, o homem, com a sombra do dia quente a arrastar-lhe o medo pelas costas. Como estaria ela? Como lhe pareceria ele? Cada passo que dava levantava uma questão, e os pés pesavam-lhe por não ter resposta, tornando-lhe o caminhar cada vez mais lento. Cruzou a rua e viu um casal enamorado sentado no passeio. Olhou o céu e a lua espreitava. Levou a mão ao bolso e retirou recordações. A sua foto. Transpirava memórias a partir do seu retrato. E despiu o casaco, porque o seu sol aquecia-o.
   Chegou à casa era quase amanhã, e ela não estava. Teria faltado ao prometido? Teria desistido pelo seu atraso? Já não conseguia rebobinar os sentimentos. Sufocava da sua ausência. E, agora, que esperava reatar a relação, encontrava-se sozinho. Utilizou a chave que ela lhe dera quando ainda se amavam, abriu a porta do prédio, subiu as escadas e entrou em casa. O hall de entrada parecia-lhe mais sujo, agreste, devastado por um tufão de sensações. Olhou o mesmo espelho e viu uma cara diferente. O quão estava nublado! Levou as palmas ao rosto e vieram-lhe lágrimas às mãos. Caminhou à janela e respirou o ar da rua, enquanto gotas de água lhe caíam em cima da cabeça. E reparou que chovia. Por dentro, por fora. E, pelo tempo que tempera todo o seu feitio temperamental, pensa nela e porque ela lhe fugiu. «Escreves sensações em mim», pensou.
   Caminhou até à cozinha. Aqueceu um bule de chá. Bebeu goles imprecisos de coragem. Ela era o único pássaro que lhe pousava na janela. Que lhe diria quando voltasse? Será que voltava? Sentou-se numa cadeira e olhou em volta. A mesma mesa, as mesmas prateleiras, as mesmas recordações quentes. Um papel amarrotado, deitado no chão. Pousou a chávena, como quem aceita uma sentença e agarrou nele. De a conhecer asseada, sentiu um calafrio. Deixou-se ficar perto, mais perto, sem mexer no tempo. Desdobrou-o:
‘Meu amor, perdoa a minha ausência. Está para nascer quem será mais feliz do que algumas vez fomos. Escrevo-te esta carta, enquanto as horas passam no meu relógio. Eu nunca mudarei. Para mim a hora não passa, porque eu nunca mudarei. Peço que sares a ferida que te criei nesta distância, prometo não mais te magoar. Padecerei sempre de ser igual, e longe de mim querer criar-te ferida com as minhas frustrações. Vivo as minhas horas como uma aflição. Não me consigo estabilizar. Nunca notabilizei sentimentos, meu amor. Perdoo todo o teu rancor, mas prefiro viver só.’
   Deixou cair o papel ao chão, como quem salta de um precipício. Sentiu todas as portas fechadas ao redor da sua alma, e um misto de sensações apoderou-se dele. Poderia ter bebido mais do seu sorriso. Enquanto retorna, para sair, observa uma última vez o seu rosto ao espelho e procura sofrer saudade. Encontra-se tão vazio que nem sente falta, o corpo imóvel por tê-la perdido. Os seus olhos brilham, como as estrelas lá fora, procurando dar luz a um rumo novo. Desconhece-se; sente-se dorido e consumido, como gotas de água baldia que ao sol se evaporam. E, enquanto abre a porta para sair, encontra-a, entrando.
   Os seus olhares vagueiam, como um carrossel que carrega histórias mudas. Ela arrepende-se com o olhar. Ele aceita as suas desculpas. E, olhando-se, como quem se conhece duma vida, beijam-se. E não se tocam. Ele sorri. Ela retribui, e molha os seus lábios, afigurando uma onda que rebola na areia de uma praia feliz.
   «Acho que viver é desenhar sem borracha»
   «Estás disposta a dar-me a mão neste retrato?»
   Penetram-se os olhares e os lábios sorriem como aves reconfortadas em seus ninhos. Sim. E todo ele era impune e tinha uma história sem começo.
   «Amo-te»
   «Também te amo»
   Ele não disse a verdade. Ela mentiu. Tudo o resto germinará silenciosamente no interior de cada um até nova explosão.
   E então, abraçados com a eternidade, os dois amantes selaram o destino.

Aluno 40834

05/05/11

Conto individual (2ª Versão)

A PORTA NÃO BATEU …

A porta nunca bateu de facto. As pessoas bem educadas não batem com as portas.

O lugar do pai na mesa ficou vazio. Os fatos do pai desapareceram. O jornal do pai deixou de vir regularmente. A cama grande passou a ter uma só almofada. O cheiro desagradável e insistente dos cigarros da mãe passou a empestar a casa dia e noite.

O pai estava vivo mas não estava ali. A mãe estava ali mas não parecia viva. Os olhos comiam-lhe a cara toda, as saias dançavam nas ancas magras e apareceram-lhe duas pequenas rugas obstinadas no canto da boca. Emocionalmente perturbada não conseguia gerir os acontecimentos.

O silêncio que descera sobre a casa era desconcertante.

Diana fazia-se pequena e despercebida. Veio-lhe aquele hábito de passear pelo corredor com as mãos atrás das costas e o queixo levantado a desafiar o mundo, quando ninguém a via .

O mundo desabara à sua volta sem que nada tivesse saído do lugar, a não ser o cadeirão do pai que ela virava para a parede quando estava sozinha em casa.

No colégio, a vida continuava, pontuada por vezes com segredos, risinhos e olhares de soslaio. Nessas alturas, Diana fingia-se de morta por dentro, não dava sinais de entender, recolhia-se num mundo só dela. Fora disso, falava, falava, falava constantemente: do primo que chegara do estrangeiro, do novo ipod, das gémeas vizinhas do andar de cima, do bebé recém-nascido no andar de baixo, da nova casa dos tios. De si, dos pais nunca.

Sábado amanheceu cinzento. A mãe acordou nervosa.

“ Despacha-te, Diana. O teu pai deve estar a chegar e quero-te pronta lá em baixo.”

“ O pai não sobe?”

Desabou-lhe na cabeça uma tempestade de lágrimas e de recriminações:

“Subir? Pôr cá os pés? Tens cada ideia. Não entendes nada. Não ouves nada. Não vês nada. Para ti está sempre tudo bem. Tanto te faz, não é? Desculpa, desculpa querida. Anda cá , Diana. Nada disto é contigo. Já não sei o que digo. Anda cá, anda.”

Abraçada à mãe, a passar-lhe uma mão desajeitada pelo cabelo, Diana segurou as lágrimas e afirmou a voz:

“ Pronto, mãe, pronto. Eu estou aqui. Já passou. Vou-me vestir que o pai deve estar a chegar. Descansa que ele não sobe e eu volto amanhã.”

O carro apitou duas vezes lá em baixo. Diana desceu as escadas quatro a quatro, atravessou a rua a correr e dois minutos depois estava sentada ao lado do pai, o sorriso a doer-lhe, a culpa de deixar a mãe sozinha a remoer-lhe, a importância de se sentar no banco da frente e a ideia de ter o pai só para si a agradar-lhe.

“ Não se dá um beijo ao pai?”

“ Agora não. Acabava de ver, pelo canto do olho, a cortina ligeiramente afastada da janela e a cara da mãe a espreitar.”

O carro arrancou bruscamente. A mão do pai pousou-lhe ao de leve no joelho.

“ Temos muito que falar os dois. Não tenho tido tempo. A tua mãe e eu…”

“ Pai como é que se chama o filme que vamos ver? Podemos ir comer um gelado a seguir. No sábado que vem posso trazer uma amiga? A Isabel. Lembra-se dela ? Aquela que os pais dela se separaram o ano passado. Anda um bocado triste.”

“E tu?”

“Eu, quê? Posso trazê-la pai? Se disser que sim dou-lhe um beijo agora.”

O carro encostou ao passeio e Diana abraçou o pai com toda a força.

“ Largue-me, agora largue-me, pai. Já chega, no sábado que vem há mais.”

O pai não insistiu, não disse mais nada e Diana agradecida encostou-se confortavelmente no banco e começou a olhar à volta.

O mundo continuava ali. O pai estava vivo. A mãe estava viva. Ela também. Deixassem-na em paz, não lhe tentassem explicar nada. A guerra era deles. Diana só queria fazer-se tão pequena e despercebida durante uns tempos, que quando ambos dessem realmente por ela, já tinha começado a crescer sozinha e a responder sem se engasgar:

“ O meu pai? A minha mãe? Estão bem, muito obrigada. Eu também.”

Alguns anos mais tarde, Diana, uma jovem adulta, perscruta a sua memória, marcada pela separação dos pais e tece considerações sobre o seu presente e sobre os caminhos que se lhe abrem como opções de vida. Procura num momento de introspecção, desprendido de emoções infantis, fazer uma reavaliação das marcas passadas, tirar conclusões e com a lucidez proporcionada por raciocínio adulto, procura caminhos que não dependam de ninguém senão de si mesma.

Calha que estou sozinha em casa. No conforto do espaço conhecido, no ninho ambíguo do silêncio. Sobe-me um impulso incontrolável de explorar a arca da imaginação e da memória. Revolvo, ponho, tiro invento. .Tenho os braços cheios de um montão de coisas inúteis e de outras que o não são.

A gente nasce, a gente chora, cresce, faz altares de pessoas e ideias, faz amigos, faz disparates, faz versos, faz tristes figuras, melhor ou pior recorta e preenche um quadradinho próprio no meio onde vive e prepara-se para agarrar o tempo pelos colarinhos, sem pressa nem cerimónia

Mas o tempo não tem colarinhos. Não tem sequer pescoço. Para uns, é um relógio que divide a rotina em tarefas certinhas, para outros é um ladrão que é preciso apanhar a todo o custo. Mas afinal o tempo é apenas o período de difícil transição entre a vida que se pensou ter escolhido e as escolhas que os anos nos vão apresentar. Sempre apoiados e, ao mesmo tempo, fortes no contexto em que nos possamos integrar.

Felicidade? Aquela palavra mágica convertida em chave da vida para abrir toda e qualquer porta? Ilusão? Engano? Pozinhos de sonho sobre a realidade? A eterna fugitiva que perseguimos sem nunca lhe conseguirmos tocar? Um minuto perfeito, uma hora inesquecível e queremos repetir e repetir sem sabermos que mal lhe tocamos já se transformou em pedra da memória.

Melhor pôr um pé à frente do outro, tropeçar, cair levantar, fazer do erro bandeira, fazer do certo o incerto e seguir caminho sem olhar para trás mais que o instante preciso para dar corda ao relógio da vida.

Joana Sousa

Aluna nº 37679

04/05/11

Conto individual

O Estranho Mundo de Zoe

Era uma tarde de domingo, igual a muitas outras, Zoe e seu irmão Félix brincavam no quarto dos brinquedos enquanto aguardavam que o pai os chamasse para irem visitar os avós.
Zoe e Félix tinham dois anos de diferença, mas brincavam muito um com o outro, num universo que só eles compreendiam. A casa onde viviam era grande, com dois andares, as crianças viviam sobretudo no andar debaixo que era para elas um mundo de mistérios e lugares de conforto. Ao fundo das escadas encontrava-se uma velha máquina de costura cujas gavetas estavam cheias de tesouros, botões gigantes, botões pequeninos, botões às flores, botões de todas as formas e feitios, dos quais Zoe tinha muito medo, mas também havia rendas antigas, pedaços de bordados, caixinhas de remédio antigas e ovos de madeira para cozer meias. Ao lado estava a porta para o quarto de Zoe, era um espaço claro e acolhedor, com bonecas de trapos e na cabeceira da caminha de ferro estavam dois fantoches, um ouriço e um coelho, longas conversas surgiam com estes dois na hora de adormecer...
Neste piso inferior que era praticamente só para as crianças, também existia um quarto de arrumos cheio de armários com portas gigantes que não se podiam abrir, viviam lá monstros escondidos… Eles gostavam de aparecer quando estava escuro e silêncio. Nessa sala de arrumos estava a mesa, também gigante, dos legos onde havia uma cidade que igualava o mundo de lá de fora. Félix era quem arquitectava a estrutura da cidade, da vila e da praia, mas era Zoe quem lhes dava vida.
Os bonecos tinham nomes e personalidades, havia casais idosos, adultos e jovens apaixonados, havia ricos e pobres, pessoas boas e outras menos boas. Quando os diálogos e as construções terminavam, os dois irmãos contemplavam a cidade e limitavam-se a imitar os sons que esta tinha.... Bib bib, booooomm, Arghhg, trim trim. Bomp. Olá! Tinónini... Zzzhhjjhkkkmm.
Mas os legos não eram o único mundo criado por estes dois irmãos. No pátio da casa havia toda uma selva onde Gi-Joes entravam em guerra, claro está, havia sempre uma Gi-Jane que corrompia a razão de todas as guerras. Tinha de haver, impreterivelmente, uma mulher nas histórias para Zoe entrar na brincadeira.
As outras duas divisões do andar eram o quarto do Félix e o quarto dos brinquedos, ali, havia de tudo, desde pinipons, playmobils, transformers, barriguitas, barbies, pequenos-póneis,e quase todos os brinquedos da moda, naquela altura. As letras do abecedário estavam espalhadas pelas paredes, Félix, o mais velho, já as conhecia mas Zoe, ainda não. Os desenhos que os irmãos faziam eram expostos pelos pais nessa mesma sala, tornando a sala branca numa mistura de cores e bonecos animados.
Félix gostava de fazer banda desenhada, copiava os seus cartoons preferidos, que eram os Manga. Zoe não percebia a piada dos olhos bicudos e sentia-se frustrada por não conseguir desenhar tão bem como o irmão. Ela apenas sabia fazer pinturas abstractas! Começava com uma bola azul, depois outra cor-de-rosa, outra amarela, umas ondas roxas, umas sombras laranjas, pintava até a folha ficar preenchida, era o único tipo de desenho que ela sabia fazer, mesmo assim orgulhava-se deles e pedia para os emoldurar, eram os desenhos dela, os seus bebés artísticos.
Ás vezes, quando se fechava no quarto, ligava o seu gira discos portátil da fischer-price, uma prenda de quando fez quatro anos. O gira-discos ainda era dos que funcionavam a pilhas. Com o gira-discos ligado Zoe cantava e dançava como se fosse outra pessoa, noutro planeta, noutra época, fora da realidade.
No quarto, Zoe criava inúmeras personagens, baseadas nas pessoas que ela via diariamente. O quarto era um mundo seguro, onde Zoe podia ser quem quisesse, onde podia alcançar tudo o que desejasse.
E como não sonhar naquela casa? Quando Zoe subia as escadas, encontrava na sala o pai a tocar viola e a mãe a dançar descalça, o pai também dançava e fazia umas figuras muito cómicas, ninguém dançava como ele, não era uma dança especialmente elegante, mas era apelativa, com alguns movimentos mais bruscos, acompanhados de expressões faciais sisudas e absurdas ao mesmo tempo.
Anos mais tarde ele explicaria a Zoe, que a dança era um reflexo das tripes que ele tivera quando era mais novo, em que as caras se arrastavam e fragmentavam.
Nessa tarde, Zoe brincava no quarto dos brinquedos com a sua casa de bonecas inglesa, toda feita em madeira, também tinha dois andares e uma família, como a de Zoe, olhando para a casa, surgiu-lhe um pensamento e interrogou-se em voz alta:
- Félix, e se formos uns bonecos iguais a estes? – Félix não respondeu e continuou a brincar, aquela questão deixara-a inquieta. Porque é que as coisas eram assim? E se não fossem? Quem é que controlava? E o quê?
Aquela casa de bonecas podia ser um outro mundo, onde outra Zoe brincava com outra casa de bonecas, com outra Zoe e outra casa de bonecas. E esta Zoe, a nossa Zoe, podia ser uma simples boneca, controlada por outra, controlada por outra, controlada por outra... Um sem fim de controlo de bonecos. Um espaço infinito de casas de madeira inglesa com famílias fabricadas.
O coração de Zoe batia aceleradamente, ela não queria mais brincar e não sabia o que fazer, será que se começasse a chorar, estaria a fazer a birra que a boneca que a comandava queria que ela fizesse?
Como é que alguma vez voltaria a ser ela própria, se na verdade, não passava de um fantoche igual aos que tinha na cabeceira de sua cama? Todas as histórias e todas as personagens que ela tão bem criara, tinham agora uma outra dimensão, estavam vivas como ela, e ela estava morta como elas. Não havia nada a fazer, Zoe duvidava assim, da realidade da sua própria existência. Restava-lhe chorar e esperar pelo consolo do pai e da mãe que, se calhar não passavam de uns bonecos disfarçados de pai e de mãe.
Félix apercebera-se que a sua irmã estava petrificada e chamou o pai para animá-la, este ao entrar na sala viu a filha com uma expressão alheada e fixa na casa das bonecas. Para distraí-la começou a fazer sons com o corpo, criando ritmos e música e Félix alinhou na brincadeira começando a cantarolar, Zoe estrebuchou, abriu muito os olhos e com ar desconsolado deu uns ares da sua graça fingindo entrar na brincadeira, porque ela ainda estava na dúvida...
Entretanto a mãe, que já estava pronta, chamou-os para saírem, ao subir as escadas, o pai pegou em Zoe ao colo, encheu-a de beijos e disse-lhe que não se preocupasse, porque tudo estava bem, tudo estava sempre bem enquanto ela fosse tão amada.
No carro, disse aos pais:
-Manhã manhã vou aprender o abecedário todinho! Os pais sorriram e a viagem correu bem.
A meio caminho, virou-se para o irmão e disse que não conseguia mexer os olhos para olhar para o lado. “ Como as bonecas”, pensou...
Todas as histórias que ela inventava podiam ser verdadeiras, e aquelas que lhe contavam podiam ser as falsas. No percurso até casa dos avós foi observando os carros que passavam e as pessoas na rua, todas elas seriam criadoras e todas elas haviam sido criadas. Muitos enredos, muitas histórias, muitas brincadeiras... E concluía para si mesma:
- Isto dá muito trabalho, não vou chegar ao fim!


aluna n.º 31223

Conto Colectivo VII

O vidente finalmente atendeu, perguntando o meu nome e o que eu gostava de saber do meu futuro. Ia dizer que havia me casado com alguém por conveniência e que amava secretamente outro homem, mas então olhei-me no espelho e de repente senti-me ali um tanto patética. Fiquei envergonhada e resolvi inventar o que me viesse à cabeça. Disse que me chamava Maria e que havia escolhido uma profissão que me pagava bem, mas eu gostava mesmo era de ser arqueóloga, então o que faço, fico no meu porto seguro ou lanço-me num mar desconhecido? O vidente ouviu a minha dúvida e ficou por alguns segundos pensativo, como se estivesse a captar uma mensagem do além, em seguida olhou para a câmara com um olhar penetrante e disse a enigmática frase: "Olhos cegos podem ver". Foi então que acordei.

As costas doíam-me e o pescoço estava dorido, não sei porque é que insistia em deitar-me naquele sofá. Levantei-me para espreitar o frigorífico mas estava vazio. Eram três da manhã, bebi um copo de água e enfiei-me na cama. Deitada, olhava para o tecto e murmurava uma canção inventada. De repente tive um ataque de riso com gargalhadas soltas e profundamente genuínas. Apercebi-me do quão ridículo aquele sonho fora... O poder do subconsciente actuando num universo místico de sonhos de televisão.

Senti-me desperta e com vontade de fazer alguma coisa. Peguei num livro para ver se o sono voltava, mas não consegui passar da quinta linha. Pousei o livro e recomecei a pensar no que a vidente me dissera. Teria de facto tentado enganar o destino, ou será que ao fugir do “suposto” destino, tinha ido de encontro ao que me estava realmente destinado?

Vencida pelos pensamentos, decidi levantar-me e ir até à varanda apanhar ar. Reflecti um pouco mais sobre os desígnios da vida, as previsões da vidente. Estaria a fazer uma leitura errada? Seria possível ter renunciado à felicidade que esteve sempre ao meu alcance por causa dos desígnios da cigana?

Peguei no telefone para ligar ao António. Lá já era de manhã, ele provavelmente estaria atarefado, mas por sorte atendeu rapidamente, com aquela voz rouca que me é tão familiar.


Denilson Freitas da Silva (45156)
Maria Inês Sousa (31223)
Cátia Ferreira (39071)

02/05/11

Conto Individual - António Seabra

Razão Sombria

Não me deram qualquer justificação para me levarem ao Psicólogo. Começaram por dizer que tinha de ser, que tinha mesmo de ser. Depois evoluíram para um motivo mais racional: não sabemos. E tanto o não saber como o ter de ser não me pareciam razões válidas. Fiz então um esforço para descobrir os motivos que estavam por detrás da marcação de uma consulta caríssima com um caríssimo salvador de tristezas. Ainda por cima para mim que nunca me senti sozinha nem deprimida nem nada dessas coisas. Estou sempre bem-disposta, a vida não me parece assim tão difícil, e independentemente do significado da palavra que vou dizer a seguir, considero-me uma rapariga feliz. Então agora imagine-se a pergunta dentro de mim, o ruminar incansável das razões que levariam uma rapariga bem de saúde como eu a frequentar um médico da cabeça. Quereria ele perguntar-me alguma coisa que só eu soubesse? Juntar a Santo Agostinho, Rousseau e Tolstói as Confissões da irmã de Pedro? Sempre gostei de ler e se fizessem da minha vida uma obra de arte não me importava nada. Por falar em livros vem-me à cabeça um conto de um escritor moçambicano em que a personagem principal é internada por gostar de declamar poesia. Será esse o medo dos meus pais?

Tentei convocar uma reunião familiar envolta em chá preto e torradas com marmelada mas o convite foi negado, tanto pelo meu pai como pela minha mãe, por ser o número de membros da família demasiado grande para o conhecimento do motivo. Como se houvesse ali alguém a mais com que não se pudesse partilhar a informação. Em primeiro lugar achei que estavam a brincar com a minha cara porque a nossa família é composta por quatro elementos: além de mim e dos meus pais existe só o meu irmão Pedro. Em segundo lugar o Pedro sabe tudo acerca de mim e é uma pessoa com quem não tenho problemas de partilhar seja o que for. À falta de vontade dos meus pais para tomar chá e falar da vida acabei por desistir. E como sobretudo gosto de os ver satisfeitos lá acedi ao pedido e ao fim de algumas semanas houve um dia em que o despertador do telemóvel me acordou com o seguinte lembrete: Psicólogo.

Então o dia chegou e lá fui eu. Bem-disposta como quase sempre, sorridente como quase sempre, saí de casa e apanhei o metro. Cheguei à estação, subi as escadas que nos elevam à superfície, atravessei meia dúzia de ruas e estava lá. Dois andares sem elevador que não custaram a subir. Incomodava-me, isso sim, a ideia de ter de esperar horas para que chegasse a minha vez numa sala cheia de cadeiras podres com velhas a queixar-se das costas e dos netos mal comportados.

Vá lá que não tive de esperar muito, a sala de espera vazia para espanto meu, as revistas da sala de espera ainda mais vazias de tão antigas, uma televisão onde alternava uma jornalista muito feia com a chuva esquisita que ocupa os televisores antigos. A jornalista falava de suicídio na adolescência, a chuva esquisita não falava de nada e agradava-me.

De maneira que ao sentar-me para esperar não esperei grande coisa e fui logo chamada. Entrei para o interrogatório espiritual e mesmo antes de começar a falar reparei no tique deveras engraçado que o doente, quer dizer, que o médico tinha no olho esquerdo, que piscava e piscava sem parar. Se calhar não era tique nenhum e estava apenas nervoso, mas sinceramente não vejo razão para a minha presença enervar alguém. Para juntar ao olho esquerdo que piscava sem parar uma das abas do nariz mexia-se a uma velocidade que por pouco não me fez desatar às gargalhadas. Mas contive-me, como sempre faço nestas alturas, e assim se deu início à sessão de perguntas.

Era quase capaz de apostar que a primeira pergunta iria ser aquele cliché tenebroso que ocupa as cabeças das empregadas domésticas quando os filhos não vão à escola: porque te sentes triste. As minhas expectativas não foram concretizadas e como não me sinto triste nem sozinha nem deprimida nem nada dessas coisas tirei um cigarro do maço e pedi isqueiro ao médico. Como ele é médico e não doente recusou-se a dar-me o isqueiro e então guardei o cilindro na caixinha.

Depois de muito piscar os olhos e contorcer as narinas lá começou a falar. E em vez de fazer perguntas sobre a minha pessoa preferiu saber como estavam as coisas lá em casa. Pelos vistos a consulta devia ter sido marcada para as coisas lá de casa visto as perguntas não serem pessoais. Respondi que estava tudo bem, que tanto eu como o meu irmão Pedro eramos pessoas felizes e nada havia a temer. Depois de lhe explicar este facto óbvio, e de ficar indignadíssima com a sua expressão de estranheza perante a segurança da minha resposta, o médico pegou numa caneta e começou a desenhar pequenos círculos perfeitos numa folha em branco. Ficámos os dois em silêncio, cinco minutos, dez minutos, quinze minutos, vinte minutos, até sermos interrompidos pelo telefone que principiou a ganir. O doente atendeu o telefone, digo, o médico atendeu o telefone, e do outro lado, isso sim, um doente, mas um doente especial: um doente que ia deixar de o ser. A chamada foi automaticamente para o sistema mãos-livres, que torna sempre a voz tremida e irreconhecível, mas ainda assim pude ouvir a confissão do rapaz: ia-se pendurar numa corda mas não queria deixar de agradecer ao psicólogo toda a ajuda. Obrigado, doutor, do fundo do meu coração, já que não posso agradecer do fundo da minha mente. Achei esta despedida engraçada mas nestes momentos, não é verdade, a gente não se pode rir.

O médico, esbaforido, vestiu o sobretudo e saiu do consultório. Eu, agora sozinha, pela primeira vez na vida sozinha, pela primeira vez na vida sozinha e logo num consultório psiquiátrico ou psicológico ou seja lá o que for, afinal que diferenças separam comprimidos de conselhos, abri uma das gavetas da secretária do médico e encontrei um isqueiro. Tirei outra vez o cigarro do maço para finalmente sujar um bocadinho os pulmões quando descubro que o isqueiro não tem gás. E ao reparar que o isqueiro não tem gás, e ao analisar que estou numa sala de malucos para explicar a alguém porque é que me sinto triste, que não sinto, e ao acrescentar a esta análise que para além de estar numa sala de malucos estou sozinha numa sala de malucos, eu que nunca estive sozinha nem sei o que é isso de solidão, e ao ouvir aquela chamada digna do sítio onde estou mas não digna de mim, de facto não digna de mim, tudo isto me pesou, como diria um dos amigos do Fernando Pessoa, acho que o Álvaro de Campos, tudo isto me pesou como uma condenação ao degredo.

Para acentuar o degredo o médico voltou, de lágrimas a correr pela cara. Não se sentou, dirigindo-se directamente a mim, agarrando-me na cara e dizendo-me, a chorar: por favor finge que não ouviste aquela conversa. Outro cliché tenebroso e, para fazer a rima, pavoroso. Assustada, sem saber o que dizer, mas sabendo à partida que a resposta era óbvia, positiva, peguei-lhe nas mãos suadas do desespero e descolei-as da minha cara. O homem sentou-se no lugar mas não conseguia conter os nervos, não conseguia falar. Como eu não sabia o que havia de dizer, e como o médico não fazia perguntas, e visto que já eram quase três horas da tarde, voltei para casa.

E ao entrar em casa, como se explicará isto por palavras sem parecer mentira, os meus sentidos bloquearam. O meu irmão Pedro, logo à entrada, pendurado pelo pescoço. Devo ter ficado uns dez minutos a olhar para ele, os dez minutos mais demorados da minha vida. Depois reparei que no chão, na linha dos seus pés, um telemóvel. Por instinto peguei nele e vi a última chamada efectuada. Psicólogo.

01/05/11

Roberto Benigni - O Tigre e a Neve

Uma lição inspiradora e divertida que todos podemos aproveitar.
Espero que gostem!



Não comecem com poemas de amor, que são os mais difíceis, esperem pelo menos oitenta anos.

Escrevam sobre outras coisas… sei lá… sobre o mar, o vento, um radiador, um comboio atrasado, não existe uma coisa mais poética que outra!

Perceberam?

A poesia não está fora, está dentro

Cos'è la poesia,/ non chiedermelo più,/guardati nello spechio,/ la poesia sei tu...

[O que é a poesia, não me perguntes mais, olha-te ao espelho, a poesia és tu]

E vistam bem as poesias, procurem palavras belas… Têm de escolher!
Ás vezes é preciso oito meses para arranjar uma palavra!
Escolham, que a beleza começou quando alguém começou a escolher. Desde Adão e Eva

Nem sabem quanto Eva demorou a escolher a folha de figueira certa. Como me fica esta, e esta, e esta? Desfolhou todas as figueiras do paraíso!

Apaixonem-se, se não se apaixonarem tudo está morto… morto!
Devem apaixonar-se e então tudo se torna vivo, move-se tudo…

Esbanjem a felicidade, desbaratem a alegria e sejam tristes e taciturnos com exuberância
Atirem à cara das pessoas a felicidade! E como se faz? Deixem me ver os apontamentos que não me lembro… É isto que devem fazer… Não consigo lê-los e esqueci-me

Para transmitir felicidade é preciso ser faliz e para transmitir a dor é preciso ser feliz! Sejam felizes!
Penem, sintam-se mal, sofram… Não tenham medo de sofrer, todo o mundo sofre! E se não tiverem como não se preocupem, até porque para fazer poesia basta uma coisa… tudo

Perceberam?

E não procurem novidades, a novidade é a coisa mais velha que existe

E se o verso não vem nesta posição, nem naquela, nem nesta, nem assim, ponham-se no chão! Ponham-se assim!
Olhem! Ohh é deitado que se vê o céu.

Olhem que beleza! Porque é que não vos consigo mostrar?

Os poetas não olham veêm

Façam as palavras obedecer-vos Se a palavra parede não está correcta não a usem… durante oito anos! Assim ela aprende! Que é isto? Não sei.

Isto é a beleza, como aqueles versos ali que quero que fiquem escritos para sempre!

Vá, apaguem tudo que a aula acabou.